29ª MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES

A MOSTRA DE CINEMA DE TIRADENTES abre o calendário de festivais de cinema brasileiros com 137 filmes de 23 estados brasileiros. E abre, justamente, com uma produção diversa e plural focada no cinema brasileiro contemporâneo, com pré-estreias, mostras temáticas e competitivas, seja de cineastas que já tem uma carreira estabelecida, seja daqueles que estão começando — daí a importância desta experiência.

E é uma experiência. Tudo gratuito, aberto ao público. A cidade histórica se transforma em palco de oficinas formativas, cinema ao ar livre na praça, debates sobre os filmes, homenagens a artistas, que este ano traz a atriz, diretora e roteirista Karine Teles, com exibição de Riscado, de Gustavo Pizzi (2010) na programação. Foi, aliás, Riscado o primeiro filme em que vi Karine atuando; o mais recente, Cyclone. E também Que Horas Ela Volta, Benzinho e Manhãs de Setembro — só pra citar o que eu mais gosto.

A seguir, filmes vistos por aqui, nas diversas Mostras, trazendo um pouco da diversidade desta sempre linda e criativa experiência cinematográfica.  


 

KARINE TELES é a homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O primeiro filme que vi com a atriz — que também é roteirista deste longa — foi RISCADO, de Gustavo Pizzi, de 2010. O último, CYCLONE, de Flávia Castro, de 2025. Em ambos os filmes, Karine faz papel de uma artista. A Bianca, de Riscado, é competente, acredita no seu talento e não desiste do ofício e de buscar um caminho sólido na vida de atriz; a Marie, de Cyclone, não é talentosa, segue por vias tortuosas, mas se consolida como a rede de apoio tão necessária à protagonista, se consolida na sororidade e na feminilidade em que nós, mulheres, nos encontramos. “Sempre que me perguntam sobre meu trabalho, sobre quem eu sou, peço pra assistir a Riscado”, conta Karine Teles ao Cine Garimpo, em Tiradentes. “A personagem é uma mulher que depois de muito tempo consegue pagar as contas com seu trabalho de atriz. Essa é uma das minhas maiores conquistas: conseguir viver do trabalho que eu escolhi.”

Karine é atriz, roteirista e diretora, no cinema, televisão e teatro, e encara sua presença e atuação no campo artístico como a sua melhor contribuição como trabalhadora. “É o lugar ao qual eu pertenço, mas ainda sou muito a Bianca: apaixonada pelo que faz, inteira naquilo que eu vou representar. Já a Marie, não é talentosa, mas tem a inteligência da vida sem privilégios, abandonada à própria sorte”, reflete. “São muitas mulheres envolvidas no filme Cyclone, a começar pela diretora Flávia Castro, o que contribui pra esse olhar feminino da diversidade e da rede de apoio tão necessária”. Verdade. Esse é um dos pontos mais bonitos de Cyclone: o feminino e suas batalhas, uma após a outra.

E se estamos falando o ofício da arte como escolha de trabalho, ele precisa ser sustentável. A Carta de Tiradentes, documento desenvolvido por uma equipe multidisciplinar de profissionais do audiovisual brasileiros, reunida no Fórum de Tiradentes quatro anos consecutivos, traz diretrizes de como organizar e desenvolver a indústria do audiovisual como instrumento para fomentar a indústria e garantir a todos o direito à cultura. “Existe uma confusão com uma parcela de pessoas no Brasil que acha que trabalhar com lei de incentivo significa pegar dinheiro público pra uso próprio”, explica Karine. “As pessoas têm dificuldade em entende que outras indústrias também recebem incentivo, a agropecuária, automobilística e muitas outras. Tudo que gera emprego e devolve imposto passa pelo incentivo do governo. A arte em geral, a cultura, também é indústria. É o que coloca comida na mesa de muita gente e pode muito mais, porque o Brasil tem diversidade cultural. Investir em uma indústria que gera riqueza é um investimento muito inteligente. Imagine o que o país pode fazer quando a gente conseguir firmar o pé como um setor competente!”

Podemos fazer muito. Trabalhar com cultura é trabalho. “As pessoas têm dificuldade de entender essa atividade como trabalho por ser um bem imaterial.” Verdade também. Mas estamos aqui pra mostrar e convidar todos a vivenciar a cultura nos seus diversos formatos. Viva os festivais e mostras de cinema!


ANISTIA 79, de Anita Leandro (Mostra Olhos Livre)

Uma das últimas coisas que um exilado quer é ser fotografado, filmado. Perseguido, por definição, precisa ser o mais invisível possível. O objetivo é sobreviver e voltar pra casa. Mas o material que chega nas mãos da documentarista Anita Leandro é exatamente o contrário: extenso, detalhado, com som e imagem impecáveis capaz de reconhecer, inclusive, pormenores de quem esteve naquele comitê em Roma. ANISTIA 79 mostra o encontro dos exilados na Europa após o golpe de 1964 enquanto se reuniam na Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, o maior encontro da esquerda brasileira fora do país. Já sabendo que a anistia seria uma realidade, reúnem-se para buscar concretizá-la de forma ampla, geral e irrestrita, inclusive para desmontar o aparato repressivo da ditadura e punir os torturadores. Tudo isso sob uma ótica bem diferente, é preciso dizer. E esse formato contribui, verdadeiramente, para o resultado impecável que se vê na tela.

Diante do achado em um porão de Paris, Anita Leandro faz a escolha de não somente recuperar o material e torná-lo público em forma de documentário — o que já seria um feito e tanto. Opta, no entanto, por identificar os participantes daquela conferência e começar a jornada de localizá-los e convidá-los a assistir ao material. E é o ato de vê-los assistir aos exilados na conferência em Roma que se transforma neste documentário. “Toda a fala dos personagens que participaram do filme deveria ser proveniente da projeção do material”, explica ela durante a conversa com a equipe do filme na Mostra de Tiradentes. “O personagem, na exibição de ontem, era cada um de nós; o espectador de hoje também dialoga com a realidade daquele tempo, afinal é um filme sobre memória histórica, mas também afetiva”, completa. Uma metalinguagem do começo ao fim: assisto ao outro assistindo e as emoções se sobrepõem. 

Memória se constrói com diálogo. ANISTIA 79 é o exercício de observarmos familiares, amigos e até exilados revisitarem a conferência, reconhecerem seus entes queridos, se reconhecerem depois de 50 anos em um arquivo de imagens que nem imaginavam existir. É um exercício de nos projetarmos para aquele momento e enxergar paralelos — ainda mais com o termo “anistia” sendo usado hoje de forma tão torpe e irresponsável.

Reconhecer-se parece ser a palavra-chave, mesmo que ditadura, repressão, tortura passem longe do imaginário ou da realidade de cada um. Só que não. A emoção na fala de quem viveu na pele aquele momento humaniza a memória. O silêncio humaniza. Quando  à filha de um exilado se reconhecer, aos 3 anos, na tela, e reconhecer o vestido que a mãe dela usava, a história se humaniza e nos aproximamos dela. Como bem disse Anita Leandro, “a memória é uma estrutura de mosaico”. Construída no coletivo, ANISTIA 79 valoriza a individualidade de cada voz formando um coro.


 

POLITIKTOK, de Álvaro Andrade Alves (Mostra Aurora)

A ideia é muito boa: apresentar a polarização da eleição presidencial de 2022 através de lives feitas no TikTok nas vésperas do pleito. É documentário político ou seria sobre política? Tanto faz e vale a provocação. Política e rede social andam juntas, pro bem e pro mal, e isso é um caminho sem volta. POLITIKTOK já tem esse conceito no nome: junta o modo de comunicação contemporâneo em todas as esferas e o fazer da política nos personagens de Bolsonaro e Lula na disputa presidencial.

Aliás, minto. Os candidatos não são personagens, são instrumentos. Personagens são as pessoas que o diretor baiano Álvaro Andrade Alves encontra no TikTok nos dias antes do pleito e filma as lives mostrando os dois lados da moeda. Com uma montagem que pretende equilibrar direita e esquerda pra justamente focar na postura insandecida das pessoas de se expor, seja do jeito que for. “Uma das ideias era mostrar como a internet, e mais especificamente o TikTok, influencia as pessoas na hora do voto, fazendo o papel que fazia antes a televisão”, disse o diretor em debate em Tiradentes. “Trazer a questão do trabalho precarizado também é um tema importante, porque é realmente inacreditável o que o algoritmo nos apresenta.”

Apesar de longo e repetitivo — considerando que o filme traz inúmeras lives sequenciais —, o que chama a atenção e parece ser o mais interessante é o formato. Traz para o cinema o formato vertical pra telona, dialogando com a forma com que assistimos a vídeos e lives nas redes sociais. Ao contrário do cinema, que é horizontal e despoluído de outros elementos gráficos, a tela das redes sociais é, por definição, uma poluição visual só. Botões estimulam a inteiração do usuário, dispersando a atenção e levando o espectador para a posição incômoda de ter que focar na mensagem. Algo avesso ao cinema que é uno; aqui, a fragmentação visual dialoga com a polarização política, com a falta de foco e intenção, com a comunicação cada vez mais fulgaz e superficial que nos bombardeia.


 

CURTAS METRAGENS NA PRAÇA

Os curtas na praça são uma atração à parte, com exibições que condensam 5 obras diversas, numa oportunidade de saborear histórias particularmente saborosas. Destaque para NOSSO AMIGO ROMÁRIO, do diretor mineiro Antonio Pedroni, que sutil e poeticamente fala da morte como passagem lúdica e afetiva; OS URSOS E NÓS, documentário da pernambucana Maria Acselrad resgata a tradição dos ursos no carnaval da periferia de Recife, sugerindo a importante reflexão sobre a domesticação (e, claro, dominação) dos animais; e AMERICANA,  da paraense Agarb Braga, que usa o grafismo colorido pra contar uma alegre história de cinco amigas trans em Belém. 

 

 

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