À VOIX BASSE – IN A WHISPER
Opinião
Foram muitas as vezes em que a morte de um personagem possibilita a reunião de familiares que moram em outras cidades ou países. O reencontro, no momento do velório e enterro, é justamente o que deflagra a ação do filme. À VOIX BASSE foi traduzido em inglês como In a Whisper. Faz referência a sussurrar, falar em voz baixa algo que não pode ser dito claramente. O silêncio é personagem pra falar da realidade que não pode ser dita, nem vivida. Que é velada.
Quem volta pra casa da família para o velório de um tio é Lilia, uma jovem que mora na França com sua companheira. Chega em Tunis, reencontra toda a família e vivencia as emoções da infância nessa mesma casa, onde memórias e lembranças vão se mesclando com o presente, numa bonita sobreposição de imagens e simbolismos.
Aos poucos, as circunstâncias da morte do tio começam a ser reveladas e Lilia, que até então tinha decidido manter sua relação com a companheira em segredo, percebe a necessidade de mostrar quem realmente é.
Ancorado nas mulheres da família, tem como peça-chave a mãe de Lilia, representada pela atriz Hiam Abbass, no entendimento do papel dela como irmã, filha e mãe. Um drama intergeracional que não tem nada de extraordinário nos quesito linguagem, montagem, fotografia — mas nem por isso as decisões da diretora Leyla Bouzid são menos relevantes. Compõem a jornada e as escolhas essencialmente das mulheres. Os simbolismos dos detalhes captados pela câmera mostram a importância da descoberta de si mesma e da queda das máscaras. Ritos de passagem assim são como lentes observando realidades universais de sociedades conservadoras, fechadas às mudanças que só são provocadas porque personagens transgridem a regra social em busca urgente por uma voz. Em alto e bom tom.


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