ROSEBUSH PRUNING

Cartaz do filme ROSEBUSH PRUNING

Opinião

Talvez você não concorde, mas o diretor brasileiro Karim Aïnouz filmou ROSEBUSH PRUNING com a intenção de que você, espectador, sentisse empatia pelos personagens. “De todos, menos do pai”, diz ele ao apresentar o filme na Berlinale. “Porque o pai é sim alguém tóxico ao extremo; os filhos e a ex-mulher são o produto, são pessoas que querem escapar desse esquema sórdido.” Centrada na vida de uma família norte-americana milionária que se muda para uma casa de campo na Espanha, está posto para provocar. Inclusive repulsa. Vai ficar a cargo de cada um interpretar o que são os muito ricos neste mundo em que ter coisas é muito mais relevante do que ser alguém decente.

O narrador da história é Ed (Callum Turner), filho de um milionário cego, que se muda para uma casa nas montanhas da Cataluña, cercada de florestas com os irmãos Jack, Robert e Anna. Isolados, é como se se bastassem e se alimentassem das excentricidades vergonhosas da extrema riqueza monetária — e pobreza de espírito. Com exceção do seu irmão Jack (Jamie Bell), que anuncia que vai se mudar pra casa da namorada Martha (Elle Fanning), Anna e Robert estão totalmente à mercê das loucuras e obcenidades do pai. Quando o equilíbrio é quebrado com a notícia da entrada na família de um corpo estranho que não pertence a esse universo, a estrutura entra em colapso. O ditado popular, que Ed tanto gosta, da roseira, entra em cena e faz sentido: se as pessoas são rosas, famílias são roseiras e precisam ser podadas.

A questão toda é sobre essa poda. Segredos revelados aos poucos inclusive sobre a morte da matriarca (Pamela Anderson) vai tecendo uma rede de perversidades. Sem limites — pode dar asas à imaginação. “Não considero este filme provocativo”, diz Aïnouz. “Considero um filme livre, porque a minha imaginação é livre. Eu faço do meu jeito.” Verdade, não há amarras aqui, nem padrões. A extrema riqueza desta família disfuncional é permeada pela ironia que transcende a fotografia de posses excessivas do instagram ou do mundo do glamour extremo. “Tomei o cuidado de tirar sarro dessa família, porque isso nos distancia dessas pessoas”, explica. “Eu queria poder imaginá-los sentados aqui.”

Pode ser, mas não são personagens que inspiram amizade, você vai ver. Apáticos, são personagens que não fazem nada de interessante da vida — se isso te irritar, será sinal de que foram bem construídos dentro da proposta da história. Tem um quê de Triângulo da Tristeza, de Ruben Östlund, inclusive de The Square – A Arte da Discórdia, claro. Olhar para a extrema riqueza não é algo confortável pelo simples fato de ser injusto e imoral considerando o mundo em que vivemos. E pode ser que você, ao pensar sobre isso, ache essas reflexões muito interessantes, assim como acharam os atores quando leram o roteiro. “O problema foi quando viram o corte do filme”, brinca Karim. Aí a coisa mudou de figura. É provocativo sim!

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