A NOIVA! – THE BRIDE!
Opinião
Em 1818, quando Mary Shelley escreveu Frankenstein, o monstro que ficou conhecida pelo nome do seu criador, ele era uma criatura solitária. Foi Hollywood que inventou um par romântico em 1935 e a James Whale foi dada a missão de dirigir A Noiva de Frankenstein, livrando a criatura da solidão. O que a diretora, roteirista e produtora (e atriz) Maggie Gyllenhaal viu nessa história, a ponto de se lançar na sua releitura contemporânea em A NOIVA!, vai além do gancho com a epidemia de solidão do século 21 na busca por uma companheira para Frank. Embora protagonista no título, o filme de 90 anos atrás não dava à noiva nem diálogos, nem tempo de tela. São só dois minutos, sem uma palavra.
Essencialmente, o que o projeto de Maggie Gyllenhaal faz é dar voz à esta mulher que foi assassinada, trazida de volta do mundo dos mortos sem seu consentimento por uma cientista pioneira, para ser a noiva de um homem que ela nunca tinha visto na vida. “Me interessou muito imaginar o que ela teria pensado sobre essa situação insana,”, diz a diretora em entrevista. Ambientado nos anos 1930 da Chicago e Nova York gótica e mafiosa, parece que foi feita sob medida para este momento em que ser feminista neste mundo de tantos feminicídios é uma questão de sobrevivência.
A invisibilidade da noiva de 1935 é compensada aqui com Jessie Buckley (também em Hamnet) onipresente como Ida, uma mulher que vivencia o machismo de uma maneira extrema, pra depois, ser remendada e reanimada, voltando à vida para ser a companheira de Frank(enstein). Ela hesita e precisa sentir o terreno, mas tem algo que não demora: quebra padrões de comportamento, de estética, de beleza, dizendo a todos a que veio. “O filme é uma celebração a todas as nossas partes que não se adaptam onde dizem que precisamos nos encaixar”, diz Gyllenhaal. Porque Frank e Ida vão transcender as fronteiras do cinema, da dança, da máfia, da polícia, dos investigadores. Sim, eles dançam, vão ao cinema, vivem intensamente a cultura; perturbam o status quo com sua irreverente aparência e seu comportamento transgressor, pra trazer autenticidade e personalidade a pessoas que não ousam ousar.
Formam uma dupla romântica dark de foras-da-lei à Bonnie e Clyde pra atravessar o machismo que está em toda parte, mas também para encontrar sororidade na maquiagem que contagia. A cientista (Annette Bening), sua assistente e a investigadora (Penépole Cruz) bagunçam a lógica num conto de fadas às avessas, em que os protagonistas incompreendidos são autores de transformação necessária. Uma releitura original, com ritmo e energia, aventura e thriller, pra trazer frescor e entretenimento à temática fundamental da tão necessária mudança de olhar. E de comando.


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