DAO
Opinião
Se posso fazer uma ressalva a DAO, que seja feita já na saída: são três horas de duração. Dito isso, vamos às particularidades que fazem desta obra de Guiné-Bissau algo original, cheia de ritmo, cores, humor e história. Inclusive com H maiúsculo por conta da colonização portuguesa e do resgate das tradições e cultura originárias.
A começar pela estrutura do longa. O diretor Alain Gomis convida atores e atrizes não-profissionais a participar de um projeto que vai mostrar dois momentos da vida de Gloria. Para tanto, é preciso compor seus familiares — momento inicial em que ficamos na dúvida se se trata de documentário ou ficção. (Claro que a discussão aqui sobre a linha tênue entre ficção e realidade procede também.) Um dos momentos é o casamento de sua filha na França; o outro, a cerimônia fúnebre de seu pai que é homenageado na sua aldeia natal em Guiné-Bissau. Transitando entre esses dois polos opostos, DAO nos envolve, como espectadores, na dinâmica cultural e tradicional da família, praticamente nos convidando a fazer parte dela.
Isso porque a ambientação é íntima e despretenciosa. Duas cerimônias, de união e passagem, que se completam na noção da importância dos rituais. Cercados de música, ritmo, referências no vestuário, na alimentação, na locação, recheia de diálogos que vão tratar de relacionamentos, continuidade, pertencimento, perdas e quebras de paradigmas. Com mulheres no comando, a herança feminina é a espinha dorsal dos momentos de transferência e de transgressão. Afinal de contas, DAO é o nome de um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une todas as pessoas do mundo. Une. Quando digo que envolve o espectador, sinto pelos minutos a mais que o diretor incluiu no filme, porque enxugar um pouco significaria ter um filme mais redondo, fortalecendo a fluidez dessa universalidade da música, da reunião de pessoas e da possibilidade de ressignificar as tradições.


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