Pitacos sobre a Berlinale

13 de fevereiro, 2026

MICHELLE YEOH RECEBE O URSO DE OURO HONORÁRIO NA 76ª BERLINALE

Tradicionalmente os festivais de cinema prestam homenagem à carreira de atores, diretores, roteiristas. Este ano, a Berlinale entregou o Urso de Ouro honorário à atriz Michelle Yeoh, que já foi fez parte do júri em 1999.

Michelle é da Malásia e foi a primeira atriz asiática a ganhar o Oscar na categoria de melhor atriz. Isso foi em 2023, com o filme Tudo em “Todo Lugar ao Mesmo Tempo” — filme com que, diga-se de passagem, não me conectei. Mas isso são outros quinhentos. Vale dizer que a sua filmografia é extensa: vai de Wicked a Podres de Ricos, de Memórias de uma Gueixa a Além da Liberdade, de Star Trek a O Tigre e o Dragão.

O que me parece que está em jogo aqui é realmente a homenagem. Inclusive me dá a impressão que a diretora do festival, a norte-americana Tricia Tuttle, está trabalhando para compor a Berlinale de maneira a manter a curadoria com filmes de autor e histórias relevantes, convidar um corpo de jurados e um presidente representativos de nações diversas e origens que enriqueçam o olhar e as reflexões trazidas pelas obras, pincelando com filmes, séries e homenageados do cinema internacional e, por que não popular, a fim de atrair também patrocinadores e público.

Faz sentido — desde que não perca seu DNA. E não perde. Como eu já disse, Wim Wender e seus jurados e os filmes selecionados não me deixam mentir (da competição, já vimos filme da Tunísia, Turquia, Guinea-Bissao/França/Senegal, Irlanda/Reino Unido). Que tal?

No discurso, Michelle se esquivou das perguntas em relação à repressão aos imigrantes nos EUA, assim como os jurados preferiram não se posicionar durante a coletiva de imprensa. Embora não se posicionar já seja uma reposta, pode ser também uma orientação da direção da Berlinale. De qualquer forma, me parece que, mais do que proibir algo, isso traz a oportunidade para que o debate e a reflexão sejam feitos através das histórias dos filmes. Gosto disso. Eles têm bandeiras de sobra que dão pano pra manga.

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12 de fevereiro, 2026

A 76ª edição do Festival de Berlim, a BERLINALE, começa hoje oficialmente, mas nos bastidores os trabalhos já começaram. Hoje tem filme de abertura que nós da imprensa já tivemos a oportunidade de assistir. Começa com filme afegão No Good Men, da cineasta Shahrbanoo Sadat (também de O Orfanato) — e isso já sinaliza o que Berlim tem como diferencial este olhar pro mundo. Um mundo para o qual os olhos não se voltam, mas aqui temos o privilégio de observar através do cinema.

Claro que a composição do júri internacional condiz com essa premissa. Presidido por nada mais, nada mesmo do que Wim Wenders, cineasta alemão que é um ícone a ser celebrado, com obras que vão de Paris Texas e Asas do Desejo, de Pina e Buena Vista Social ClubO Sal da Terra a Dias Perfeitos. “A profissão do cineasta é incrível porque você consegue produzir algo e também aprender algo”, diz ele. “Os filmes produzem empatia e cada filme me fez diferente.”

Os filmes transformam os cineastas e o público — e a Berlinale traz isso no seu DNA, com a diversidade da curadoria. “Uma coisa é certa: em Berlim você assiste a filmes que trazem a mais diversas visões de mundo do que em qualquer outro festival”, garante Wenders. Em harmonia com essa visão, o corpo de jurados deste ano fortalece a ideia de que precisamos sim consumir histórias que ampliem horizontes, que ensinem sobre o mundo, que nos desloquem da zona de conforto conhecida para outras realidades. Temos o cineasta MIN BAHADUR BHAM, do Nepal (diretor de Shambhala, na competição da Berlinale em 2024); a atriz BAE DONNA, da Coreia do Sul (atuou em Broker, de Hirokazu Koreeda); o diretor SHIVENDRA SINGH DUNGARPUR, da Índia (ainda não conheço a obra dele); o diretor REINALDO MARCUS GREEN, dos EUA (diretor de King Richards e Bob Marley: One Love); a cineasta HIKARI, do Japão (diretora de 37 Segundos, Família de Aluguel, Treta); e a produtora EWA PUSCZCZYNSKA, da Polônia (produziu Quo Vadis, Aida? e Zona de Interesse). Júri de peso.

E isso muda tudo, claro. Quanto mais diversos são os olhares, mais pessoas, realidades, valores diversos são trazidos à tona no mar de histórias que assistiremos aqui. E temos a chance de nos conectarmos com elas. Todo mundo ganha com o diálogo que os filmes proporcionam — sem falar na construção de imagem que eles possibilitam de imagem e de “soft power”. “Estamos tentando construir diálogos com os filmes”, disse a produtora polonesa Ewa Pusczcznska quando perguntada sobre sua posição política. “Devemos fazer o trabalho de pessoas, não de políticos; aliás, somos o oposto dos políticos.”

E por trabalho, entendemos essa construção permanente de diálogos e conexões. “Como júri, somos um grupo em constante construção”, disse Wim Wenders. Com escuta ativa, sempre digo que os filmes transformam e são uma oportunidade de repensarmos nossa perspectiva de mundo. Como bem disse o diretor indiano Shivendra Singh Dungarpur, “fazer cinema nunca é sobre o resultado, mas sim sobre a jornada, o percurso pelo qual o filme te leva.” Disse tudo! Fica, aqui, o convite pra embarcarmos nessa aventura juntos!

Boa Berlinale pra nós! 🙂