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12 de fevereiro, 2026
A 76ª edição do Festival de Berlim, a BERLINALE, começa hoje oficialmente, mas nos bastidores os trabalhos já começaram. Hoje tem filme de abertura que nós da imprensa já tivemos a oportunidade de assistir. Começa com filme afegão No Good Men, da cineasta Shahrbanoo Sadat (também de O Orfanato) — e isso já sinaliza o que Berlim tem como diferencial este olhar pro mundo. Um mundo para o qual os olhos não se voltam, mas aqui temos o privilégio de observar através do cinema.
Claro que a composição do júri internacional condiz com essa premissa. Presidido por nada mais, nada mesmo do que Wim Wenders, cineasta alemão que é um ícone a ser celebrado, com obras que vão de Paris Texas e Asas do Desejo, de Pina e Buena Vista Social Club, O Sal da Terra a Dias Perfeitos. “A profissão do cineasta é incrível porque você consegue produzir algo e também aprender algo”, diz ele. “Os filmes produzem empatia e cada filme me fez diferente.”
Os filmes transformam os cineastas e o público — e a Berlinale traz isso no seu DNA, com a diversidade da curadoria. “Uma coisa é certa: em Berlim você assiste a filmes que trazem a mais diversas visões de mundo do que em qualquer outro festival”, garante Wenders. Em harmonia com essa visão, o corpo de jurados deste ano fortalece a ideia de que precisamos sim consumir histórias que ampliem horizontes, que ensinem sobre o mundo, que nos desloquem da zona de conforto conhecida para outras realidades. Temos o cineasta MIN BAHADUR BHAM, do Nepal (diretor de Shambhala, na competição da Berlinale em 2024); a atriz BAE DONNA, da Coreia do Sul (atuou em Broker, de Hirokazu Koreeda); o diretor SHIVENDRA SINGH DUNGARPUR, da Índia (ainda não conheço a obra dele); o diretor REINALDO MARCUS GREEN, dos EUA (diretor de King Richards e Bob Marley: One Love); a cineasta HIKARI, do Japão (diretora de 37 Segundos, Família de Aluguel, Treta); e a produtora EWA PUSCZCZYNSKA, da Polônia (produziu Quo Vadis, Aida? e Zona de Interesse). Júri de peso.
E isso muda tudo, claro. Quanto mais diversos são os olhares, mais pessoas, realidades, valores diversos são trazidos à tona no mar de histórias que assistiremos aqui. E temos a chance de nos conectarmos com elas. Todo mundo ganha com o diálogo que os filmes proporcionam — sem falar na construção de imagem que eles possibilitam de imagem e de “soft power”. “Estamos tentando construir diálogos com os filmes”, disse a produtora polonesa Ewa Pusczcznska quando perguntada sobre sua posição política. “Devemos fazer o trabalho de pessoas, não de políticos; aliás, somos o oposto dos políticos.”
E por trabalho, entendemos essa construção permanente de diálogos e conexões. “Como júri, somos um grupo em constante construção”, disse Wim Wenders. Com escuta ativa, sempre digo que os filmes transformam e são uma oportunidade de repensarmos nossa perspectiva de mundo. Como bem disse o diretor indiano Shivendra Singh Dungarpur, “fazer cinema nunca é sobre o resultado, mas sim sobre a jornada, o percurso pelo qual o filme te leva.” Disse tudo! Fica, aqui, o convite pra embarcarmos nessa aventura juntos!
Boa Berlinale pra nós! 🙂
13 de fevereiro, 2026
MICHELLE YEOH RECEBE O URSO DE OURO HONORÁRIO NA 76ª BERLINALE
Tradicionalmente os festivais de cinema prestam homenagem à carreira de atores, diretores, roteiristas. Este ano, a Berlinale entregou o Urso de Ouro honorário à atriz Michelle Yeoh, que já foi fez parte do júri em 1999.
Michelle é da Malásia e foi a primeira atriz asiática a ganhar o Oscar na categoria de melhor atriz. Isso foi em 2023, com o filme Tudo em “Todo Lugar ao Mesmo Tempo” — filme com que, diga-se de passagem, não me conectei. Mas isso são outros quinhentos. Vale dizer que a sua filmografia é extensa: vai de Wicked a Podres de Ricos, de Memórias de uma Gueixa a Além da Liberdade, de Star Trek a O Tigre e o Dragão.
O que me parece que está em jogo aqui é realmente a homenagem. Inclusive me dá a impressão que a diretora do festival, a norte-americana Tricia Tuttle, está trabalhando para compor a Berlinale de maneira a manter a curadoria com filmes de autor e histórias relevantes, convidar um corpo de jurados e um presidente representativos de nações diversas e origens que enriqueçam o olhar e as reflexões trazidas pelas obras, pincelando com filmes, séries e homenageados do cinema internacional e, por que não popular, a fim de atrair também patrocinadores e público.
Faz sentido — desde que não perca seu DNA. E não perde. Como eu já disse, Wim Wender e seus jurados e os filmes selecionados não me deixam mentir (da competição, já vimos filme da Tunísia, Turquia, Guinea-Bissao/França/Senegal, Irlanda/Reino Unido). Que tal?
No discurso, Michelle se esquivou das perguntas em relação à repressão aos imigrantes nos EUA, assim como os jurados preferiram não se posicionar durante a coletiva de imprensa. Embora não se posicionar já seja uma reposta, pode ser também uma orientação da direção da Berlinale. De qualquer forma, me parece que, mais do que proibir algo, isso traz a oportunidade para que o debate e a reflexão sejam feitos através das histórias dos filmes. Gosto disso. Eles têm bandeiras de sobra que dão pano pra manga.
20 de fevereiro
Amanhã a 76ª BERLINALE se encerra e saberemos quais filmes o júri presidido pelo alemão Wim Wenders escolheu. Receber uma chancela do Festival de Berlim abre portas para a carreira comercial do filme, assim como coloca a obra no radar de festivais do mundo todo — o que é maravilhoso para cinéfilos ávidos por boas histórias diversas.
Mas nem tudo são flores e sempre há, até mesmo dos grandes festivais, filmes que estão na prateleira do espanto: o que fazem aqui? Há controvérsias, claro — e essa é a graça e a grandeza dessa experiência coletiva: opiniões diferentes. Mas, já que estamos aqui em foro íntimo, a grande decepção foi At the Sea (Hungria), com Amy Adams, dirigido por Kórnel Mundruczó, do ótimo Deus Branco (White Dogs). Isso é sempre um problema e uma solução ao mesmo tempo: ter a referência de trabalhos anteriores do diretor nos situa, mas também cria uma expectativa que pode ser um tiro no pé. E foi. Nem Adams se salva. Também sem salvação foram We Are All Strangers (Singapura), A New Dawn (Japão) e My Wife Cries (Alemanha). Andemos com a fila.
Dos 22, sobram 18, que podem ser agrupados de diversas maneiras. A temática me parece mais interessante quando pensamos em tendências, assuntos na pauta do dia, universais, chamados ao diálogo de formas bem diferentes. Dentro da lógica do dinheiro, Dust (Bélgica) fala da falência de empresários de uma big tech, que quebram do dia pra noite quando descobrem que o balanço foi superfaturado pra valorizar as ações. A riqueza vira o pó do título e tudo que não sentimos é empatia pelos empresários inescrupulosos. Na linha da riqueza desmesurada, Rosebush Pruning (Reino Unido) é o luxo-lixo de gente tão pobre de espírito que beira filme de terror. Como em Nightborn (Finlândia), em que um casal se muda pra casa da família na floresta e o bebê nasce estranho. Fala de mitologia, folclore, conexão com a mãe natureza como regente de absolutamente tudo.
No continente africano também. Em Soumsoum: La Nuit des Astres, a natureza rege a vida dos que se conectam com o divino, passado e futuro, e com a morte; Em DAO (Guiné-Bissau) o foco é um movimento perpétuo e circular, que flui em tudo e une todas as pessoas do mundo através dos rituais — e é claro que o território originário dos personagens é peça chave pra entender a importância da memória. Em Wolfram (Austrália), a natureza se sobressai como detentora do poder sobre os personagens que percorrem desertos e exploram minérios para enriquecer os já mais ricos de posses, mas não de humanidade.
Mas é a temática da condição da mulher no mundo que mais agrega filmes numa prateleira que cada vez mais coleciona obras pra refletirmos. O próprio Wolfran tem personagens que precisam se passar por homens pra sobreviver à realidade machista e patriarcal tenebrosa; o mesmo em Rose (Alemanha), uma protagonista inspirada em muitas histórias reais. Bem realistas são também as mulheres de À Voix Basse (Tunísia), que precisam se esconder pra viver genuinamente, assim como em Yellow Letters (Turquia), mulheres estão à mercê das forças políticas quando se expressam contra o regime e se colocam no polo oposto do patriarcado. Josephine (EUA) leva às últimas consequências a violência sexual, quando uma menina de 9 anos é a única testemunha de um estupro. Medo da cultura machista.
É o que somos enquanto seres humanos, que são descritos em filmes de personagens — com ou sem música, mas sempre com arte. Nina Roza (Bulgária) que o diga, já que checar a veracidade de uma obra de arte é tão relativo quanto olhar para as próprias escolhas de vida. As pausas ajudam, assim como na música. Everybody Digs Bill Evans (Reino Unido, EUA) fala do jazzista, mas principalmente do seu luto, sua luta e seu lado humano de quem precisou interromper a carreira pra poder sobreviver; The Loneliest Man in Town (Áustria) acompanha o mais solitário homem da cidade no seu habitat recheado de uma vida de blues. Se refaz também, pra continuar vivo; YO (Love is a Rebellious Bird) (EUA) é uma homenagem à amizade, numa casa onde cabem todos os corações, jovens e envelhecidos. Envelhecimento é tema de Queen At Sea (EUA) com tomadas de decisões difíceis e delicadas; doença que aparece em Moscas (México) junto com a necessidade de combater os invasores bem intimistas.
Decisões delicadas e invasores têm em todos os lugares. Também em Salvation (Turquia), quando a escolha da liderança faz toda a diferença neste mundo tão complexo. Escolher será a missão dos jurados sob comando de Wim Wenders. O que virá, logo saberemos. O que é certo é que a seleção de filmes é diversa e deve ter rendido boas e ricas polêmicas — inclusive pra pensar em que prateleira colocar Home Stories (Alemanha), porque se depender da família alemão eles não sabem se vendem o hotel ou se participam de um reality show. Praticamente o dilema de casar ou comprar uma bicicleta.
