EU, VOCÊ E TODOS NÓS – Me and You and Everyone We Know

Cartaz do filme EU, VOCÊ E TODOS NÓS – Me and You and Everyone We Know
Estado de espírito:

Opinião

DIREÇÃO e ROTEIRO: Miranda July

ELENCO: Miranda July, John Hawkes, Miles Thompson, Brandon Ratcliff

Estados Unidos, 2005 (91 min)

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tive a oportunidade de assistir ao filme O Futuro, de Miranda July. Instigante a linguagem dessa diretora e roteirista, que prefere andar na contramão das grandes audiências e fazer filmes de gente comum, com os problemas, traumas, bloqueios naturais de qualquer um de nós. E quando eu digo contramão, não é de forma alguma preconceito, nem menosprezo. Pelo contrário. Miranda July tem coragem, explicita as mazelas íntimas da alma humana descaradamente. Causa até incômodo ver que, lá no fundo, é difícil relacionar-se, doar-se, trabalhar com o que gosta, cuidar bem dos outros, ser amoroso para finalmente ser feliz.

O “Eu e Você” do título é o casal que se forma nos olhares, mas não se forma de fato. Christine (Miranda July, também em O Futuro) é uma artista plástica que não consegue mostrar seu trabalho. Faz obras chamadas instalações e produz vídeos, questionando muito o envolvimento do interlocutor com a obra em si, com a vida, com sua postura diante das pessoas. Para pagar as contas, ela trabalha como motorista de táxi atendendo idosos. Um dia vai a uma loja de departamento e se depara com o Richard (John Hawkes, também em Inverno da Alma), recém-separado que ainda sofre as dores da separação, pai de dois garotos – um adolescente que está descobrindo o sexo, é de poucas palavras e prefere relacionar-se pela internet; outro pequeno, que não entende o entorno, mas vai na trilha do mais velho, dentro da sua ingenuidade.

Eles são a espinha dorsal, que vai se construindo sem qualquer glamour, sem qualquer situação especial. Ao redor estão “todos nós”- as adolescentes pervertidas, de uma geração desinteressada; a garota que não tem amigos e já coleciona eletrodomésticos para o enxoval, numa alusão ao consumo desenfreado, ao “preenchimento” do vazio interno; o idoso que se apaixona perdidamente por uma senhora à beira da morte e dá conselhos sábios; uma curadora de arte descolada na aparência, mas solitária e desestruturada no íntimo. Parece que o “todos nós” do título tem a intenção de nos incluir nessa jogada…

Apesar do modelos histórias-que-se-cruzam, Eu, Você e Todos Nós, vencedor da Caméra d’Or no Festival de Cannes em 2005, prêmio dado ao melhor filme de um diretor estreante, inova e impressiona pela densidade dos personagens, da construção do drama de cada um, da escolha por pessoa normais, insatisfeitas com a própria vida. Tive uma sensação de desconforto parecida quando assisti aos filmes do diretor Todd Solondz, Felicidade e A Vida Durante a Guerra, no que diz respeito ao lado medíocre e perverso dos personagens. Mas Miranda não ironiza a busca pela felicidade e a falsidade das pessoas, mas a trata com um certo cuidado e olhar carinhoso. Preste atenção nas sequências do encontro no banco do parque e no trajeto que o casal Christine e Richard fazem pela rua, numa metáfora aos passos da vida a dois. No fundo é otimista, só mostra como é duro encontrar o caminho.

 

 

 

 

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