ISABEL
Opinião
Isabel quer fazer algo que tenha sentido, depois de uma vida trabalhando pra outras pessoas. Empreender é a palavra de ordem, nem que pra isso seja preciso comprar uma geladeira de segunda mão e transportá-la no metrô de São Paulo. “É verdade que contribui no roteiro, que me apropriei da Isabel, mas pra mim ela é o alter ego do Gabriel”, diz Marina Person, que conversou com o Cine Garimpo na Berlinale e incorpora a personagem neste primeiro longa do diretor Gabe Klinger que leva o seu nome: ISABEL.
Na estreia mundial do filme na Berlinale na seção Panorama, o público interagiu e se identificou com a personagem dessa mulher vira a mesa, sai do emprego fixo e resolve juntar as economias pra realizar o sonho de abrir um bar de vinhos em São Paulo. “O cinema é essa coisa mágica conjunta que acontece quando a gente apresenta pro público”, diz Marina. E o público realmente curtiu. “O filme traz uma mulher vulnerável, que não tem apoio de nenhum homem na hora que ela mais precisa e que deixa um final aberto pra que cada um possa se imaginar naquele lugar.” Deixar em aberto não significa inconclusivo — essa escolha do diretor também tem um diálogo com as viradas de mesa que damos na vida. Marina constrói uma personagem despojada e espontânea, que não falha com ela mesma. “Independente do que vá acontecer com a Isabel, ela não desiste antes de tentar; isso, pra mim, teria sido o fracasso”, completa.
Isabel ama vinhos chamados “vivos” e ela dá vida ao filme que nos transporta pra uma São Paulo que está sufocada pela verticalização da cidade, que resiste às mudanças que a descaracterizam. “Morei muito tempo fora, então tenho a lembrança da cidade da minha infância, das ruas de paralelepípedo, do centro da cidade, das casas de vila”, diz o diretor Gabe Kilnger. “Usar o mundos dos vinhos artesanais abre o diálogo para a experimentação da personagem e para uma parte da cidade que quer desacelerar”, diz Klinger. “Pensei num filme que fosse coerente, que cruzasse a história da personagem, que quer construir uma jornada pessoal diferente, e a linguagem cinematográfica que fosse também autoral.” De fato, do jeito que Klinger filme, com câmeras, lentes e processo fotoquímico antigos, aproxima o espectador dos personagens que são reais, pessoas comuns e imperfeitas, com o pano de fundo do mundo do vinho artesanal (e imperfeito, segundo Isabel) pra dar um gostinho especial e intimista.


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