NATAL AMARGO – AMARGA NAVIDAD
Opinião
Não tem com não relacionar NATAL AMARGO com Dor e Glória, de 2019, já que os dois filmes são autobiográficos. “Em Dor e Glória, falo de como tive uma crise criativa por causa de uma dor física”, explica Pedro Almodóvar na coletiva de Cannes. “Natal Amargo se refere à dor moral, psicológica e eu me reconheço no personagem.” A metalinguagem fica clara e não é à toa que o título do filme em francês é Autofiction.
Autofição porque o personagem de Leonardo Sbaraglia é Raúl, o alterego de Almodóvar. Já vimos esta história antes. Raúl é um diretor de cinema que não consegue escrever um novo roteiro. A alternativa passa a ser inspirar-se na vida de outra pessoa. É a metalinguagem correndo solta: enquanto Raúl escreve, vemos sua personagem sendo construída e modificada a cada mudança de humor, a cada ideia nova. Tema também de outro filmes da competição, o francês Histoires Parallèles (será chamado Contos Paralelos em português), de Asghar Farhadi. Mas o conto que Almodóvar entrega é mais enxuto. “Quando me inspiro na vida de alguém brota, sim, o sentimento de culpa”, diz ele. E logo veio a mea culpa: “estou cansado de mim mesmo, quero contar histórias de outros roteiristas”, confessou ele na coletiva. Todo mundo deu risada. Eu admirei a postura honesta, como quem diz que as ideias se esgotaram depois de 43 filmes em 52 anos. Me parece justo, inclusive.
Pronto, Almodóvar falou. NATAL AMARGO traz suas cores, carrega seu DNA e deixa o gostinho meio amargo de que a chancela de direção e o talento do espanhol estão sedentos por embarcar em outras tramas. Ojalá! Isso me lembra a sensação que tive com Woody Allen, quando seus últimos filmes pareciam versões modificadas de um mesmo enredo. Aguardo ansiosamente mais histórias dirigidas por este contador sem igual.

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