NO GOOD MEN _ Berlinale
Opinião
Partindo da premissa de que não havia homens decentes (ou simplesmente bons) no Afeganistão, a diretora Sharhrbanoo Sadat escreve, dirige e atua neste novo filme, NO GOOD MEN, que abre a 76ª Berlinale. Assim como seus dois filmes anteriores, Lobo e Ovelha e O Orfanato, este também é baseado nos diários de Anwar Hashimi, que também atua no filme. Agora, Sadat constrói um filme que ela mesma chama de political rom-com — uma comédia romântica política. “É um filme que representa todas as mulheres afegãs, mas não queria fazer um filme triste”, disse ela na coletiva de imprensa na Berlinale. “É um filme sobre afeto, ambição, trabalho, mas também sobre sobrevivência em um sistema patriarcal e extremista.”
Não é triste, de fato. Tem humor sutil e elegante, uma graça na personagem da Naru (Sadat), a única operadora de câmera da emissora de televisão de Cabul, que sofre com o machismo e com o patriarcado, tanto na sua vida pessoal quanto profissional. “Queria contar uma história que fosse baseada na minha experiência e que trouxesse elementos relevantes do meu dia a dia”, conta. E consegue. NO GOOD MEN é sobre pessoas comuns vivendo o momento em que, em 2021, o Taliban está prestes a retomar o poder após a saída das trocas norte-americanas do país, depois de 20 anos de ocupação.
Com equilíbrio, traduz sua vivência pra tela e a vida de Sadat e Naru se confundem, assim como as experiências de Hashimi e seu personagem, Quodrat. Ainda há planos para mais dois filmes no futuro inspirados nos diários da vida de Hashimi, mas essa é uma conversa pra depois. Sadat e Hashimi se conheceram trabalhando na televisão e, desde então, são parceiros na construção de filmes com a intenção de falar dos afegãos de uma maneira que a mídia e o noticiário não falam. “O legado positivo do patriarcado e da política de restrições é que a mulher afegã se tornou muito forte, mas passa por uma experiência coletiva muito negativa em relação aos homens”, explica ela. “Cresci, assim como todas as mulheres ao meu redor, com a certeza de que não havia homens decentes no Afeganistão; este filme quebra esta lógica, mas reforça que precisamos de muito mais no mundo.” Deste ideia nasce o título do filme, no good men.
E a lógica da narrativa mostra isso. Enquanto a personagem da Naru trabalha como operadora de câmera em um programa de televisão machista, Quodat é reporter. Um dia, ela consegue convencer o editor que tem competência para cobrir um cameraman que faltou e vai a campo com Quotar. O trabalho em equipe rende admiração e afeto, revela os meandros de uma separação turbulenta, o medo da perda da guarda do filho e a tensão política arrastando as vidas para um futuro tenebroso e assustador.
Mas é preciso dizer que Sadat escolhe construir NO GOOD MEN sem uma agenda política ou social. Essas problemáticas são pano de fundo pra falar de um sentimento coletivo e fazer um recorte inusitado sobre a vida em Cabul do ponto de vista de mulheres independentes, mas que sofrem um trauma coletivo. “No meu país, não há uma indústria do cinema, mas eu quero continuar contando histórias que fazem sentido pra mim”, diz ela. “Naru tem muito da minha história, mas sobretudo é um representação do coletivo.”


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