O OUTRO LADO DO SOL – The Other Side of The Sun
Opinião
Há alguns anos, o cineasta Tawfik Sabouni foi libertado de Sednaya, a infame prisão síria conhecida como “o outro lado do sol”. Após a queda do regime de Assad e a abertura das prisões sírias, em dezembro de 2024, ele retorna ao local onde esteve detido para revisitar e reconstruir a memória de seu cativeiro. O documentário não busca reabrir feridas, mas recuperar aquilo que a violência sistemática tentou apagar: vozes, histórias e humanidade. Sabouni convida quatro outros sobreviventes de Sednaya a acompanhá-lo. Juntos, eles voltam aos espaços onde foram mantidos presos e reconstituem, com cuidado, rituais cotidianos, gestos e momentos de sobrevivência. Filmada dentro da antiga prisão, essa reencenação se transforma em uma forma de dar expressão ao que as palavras, por si só, não conseguem transmitir.
Espaços que foram testemunhas de torturas e atrocidades contra os direitos humanos são personagens quando pensamos em reconstruir momentos de violência. Muitos se tornam, inclusive, museus e são preservados para que nada além da barbárie seja instalado ali. É como se a arquitetura represasse a energia do mal outrora ali presente. Berlim é um bom exemplo desse ambiente pesado e carregado de morte. A Topografia do Terror é um centro documental e memorial exatamente onde era o centro da Gestapo, a polícia secreta nazista, da SS e do escritório central da segurança do Terceiro Reich entre 1933 e 1945. Basta uma visita ao local pra sentir o peso da história — quem dirá ao visitar um campo de concentração. Lembrei disso ao assistir a O Outro Lado do Sol, de Tawfik Sabouni. O título sinaliza, justamente, como essa prisão síria de Sednaya é conhecida. Ali não se via o sol e é prá lá que o cineasta volta depois de ter ficado preso e sobrevivido ao horror das perseguições e prisões.
Volta para revisitar a tenebrosa prisão militar que manteve milhares de presos políticos e civis durante a ditadura de Bashar al-Assad. Localizado nos arredores de Damasco, na Síria, ficou conhecida como “matadouro humano”, tamanha a sua crueldade. Foi amplamente noticiada em 2024, inclusive, a liberação dos presos por ocasião da queda do ditador. Tawfik Sabouni volta, acompanhado de outros quatro sobreviventes. Juntos, passam pelos corredores, celas, espaços vazios, e encenam o que viveram. Os rituais, os gestos, as movimentações eram controladas ao extremo e eles, punidos diante da mínima falha. A encenação, repleta de emoções, configura uma maneira de cura da cruel experiência que deixa marcas profundas pra sempre diante da morte, do medo e da violência.
O Outro Lado do Sol traz uma linguagem sensível de reconstituir as memórias do cárcere. É como se os cinco sobreviventes recriassem as cenas de como eram obrigados a se comportar nos ambientes diversos da prisão, dando ao espectador a noção do que foi essa vivência diante da morte. Sem espetacularizar, são carregadas de muita emoção e revisitadas por aquilo que sobrou de cada um deles.

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