ERA UMA VEZ NA ANATOLIA – Once Upon a Time in Anatolia

Cartaz do filme ERA UMA VEZ NA ANATOLIA – Once Upon a Time in Anatolia
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Opinião

Era uma vez… Lento, ritmo de prosa sem pressa, de prosa que enaltece a paisagem várias vezes, que fala de sua beleza, de sua imensidão, do que os personagens pensam, sentem, sem que o enredo propriamente dito se desenrole. Muito aguardado na Mostra de Cinema, este é um filme do diretor turco Nuri Ceylan, também de Climas – assisti e não sei por que razão acabei não escrevendo sobre ele. Agora entendo o tamanho do desconforto que seus filmes causam. Desta vez não tenho escapatória senão dar minha opinião sobre Era Uma Vez na Anatólia, como escapei, furtivamente, de Climas.

Não vou tentar explicar, mesmo porque não acho que se trata de entender, mas de sentir o filme. O desconforto que produziu em mim está em vários aspectos. Primeiramente, e mais óbvio, no ritmo. Lento, cansativo, não tem a pressa, preenche seus 157 minutos quase em tempo real – modo de dizer, mas juro que é essa a sensação. Sendo que os primeiros 70 minutos se passam no escuro. Sim, é noite, um grupo composto de policiais, um promotor, um médico, dois coveiros e um criminoso percorrem as colinas desertas e inóspitas da Anatólia atrás do corpo da vítima. Só que tudo parece prosaico, tem diálogos inteligentes (embora o filme prime pelo silêncio) e não há clima de mistério, mas de rotina. Conversam sobre seus males, família, mazelas, expectativas.

A outra metade se passa na cidade, no necrotério onde é feita a autópsia do corpo, onde a esposa reconhece o defunto, onde os procedimentos de registro, documentação e causa da morte são feitos sem rigor, assim como se faz qualquer outra coisa que se tenha escolha. O essencial no filme não são os procedimentos, mas sim as sensações, as impressões, as experiências, as dores humanas.

Portanto, continuo sem qualquer conclusão sobre o filme. Se o objetivo era incomodar, tirar o espectador do imediatismo do enredo que tem começo, meio e fim, e colocá-lo na seara das sensações, conseguiu. A estranheza de uma semana atrás foi se dissipando no decorrer dos dias e agora, confesso, que admiro vários elementos e ousadias ali presentes. Que é um primor em termos de paisagem, fotografia, essência humana, isso é. Mas é também uma mostra inquestionável da capacidade desse diretor de separar o joio do trigo, ou seja, não cair na armadilha de contar uma história, sem que ela fosse importante. Ele quer falar sobre pessoas e consegue fazer com que o enredo não seja essencial na sua forma, mas no seu conteúdo e na sua linguagem cinematográfica. Acho que agora entendo um pouco mais o ritmo de Climas, lento, contemplativo – um retrato da alma humana em suas perturbações. Vou rever e vencer a barreira. Fiquei devendo essa.

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