GENTLE MONSTER

Cartaz do filme GENTLE MONSTER

Opinião

A ambiguidade do título GENTLE MONSTER entrega tudo. Ou melhor, sugere. Porque este é um filme de perguntas, de personagens ambivalentes. Lucy está no centro do drama na pele da atriz Léa Seydoux, ela é uma francesa casada com Philip, um austríaco, que se muda pra uma casa de campo pra reorganizar a vida depois que ele tem um burnout. O casal e um filho pequeno estruturam a vida por lá, num ambiente tranquilo e acolhedor.

Uma investigação policial vai desmontar este mundo e jogar luz no tal “monstro gentil”, trazendo a questão central de que o inimigo mora ao lado e, normalmente, é alguém socialmente aceito e adequado quando se fala em violência sexual contra crianças e adolescentes. Ambivalente, também o título. Lucy é o centro, mas o drama rodeia as outras mulheres  — sua mãe, sogra e a policial responsável pela investigação que, aliás, está do lado da lei até o momento em que reconhecer a violência traz outros entraves e é preciso fazer escolhas convenientes.

A tomada de consciência (ou não) de cada uma delas passa por suas experiências de vida e pela dificuldade imensa de desconstruir a lógica machista estabelecida. Lucy é estrangeira, transita pelos idiomas francês, inglês e alemão praticamente ao mesmo tempo, transmitindo a sensação de isolamento. Não tem rede de apoio, não tem com quem conversar. Parece que vai sucumbir. Como bem disse a diretora Marie Kreutzer na coletiva de imprensa em Cannes, “é preciso prevenir e educar as crianças para que saibam quais são os limites e não ultrapassem as fronteiras”.

Neste tema, não tem desculpa. Conseguir sair da armadilha que vem com o suposto “arrependimento” permeia a jornada da Lucy — que canta lindamente, desconstrói sucessos da música pop e interpreta sua versão no piano como expressão de vida. É bonito de ver. Aliás, a trilha sonora que a acompanha faz a ponte com o filme anterior de Marie Kreutzer, CORSAGE — que eu adoro. Não é por acaso. Leva a discussão e o sentimento pra um patamar praticamente suspenso, como se tirasse realmente o chão da personagem.

 

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